Jean Piaget e a função da educação

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"A década de 60 foi um conto de fadas, pelo menos no Brasil. Eu mesmo ouvia os adultos comentarem que certa pessoa já estava formada. Acreditava-se que as pessoas que arrumavam um trabalho e casavam já estavam formadas. Este era o conceito de estar formado: ter trabalho e estar casado. Lembro da batalha de Lauro de Oliveira Lima para mudar essa visão popular da pessoa formada e trazer à luz a ideia de que a pessoa nunca está formada, está sempre em formação intelectual, moral e psíquica. O ser humano está em evolução, logo não chegou ainda ao fim de sua formação. Pois bem, o conceito de estar formado embutia na cabeça das pessoas dois entendimentos: que a pessoa "formada" não precisava aprender mais nada, sabia o suficiente, e que a pessoa não tinha a capacidade para aprender mais nada. O Lauro era um expoente das pesquisas pedagógicas do cientista Jean Piaget, na Suíça, e combatia a tese popular de que "a pessoa estava formada", argumentando que toda pessoa tem capacidade de aprendizagem em qualquer área do conhecimento e em quantidade ilimitada. O que me deixou espantado, na época, foi a crença na limitação da capacidade de aprendizagem. O estímulo para quebrar a sequência dos condicionamentos culturais era nenhum e o indivíduo que tentava mudar era criticado. O meu cabelo sempre tinha sido cortado ao estilo de "Príncipe Danilo", meio parecido com o corte dos militares. Aquilo começou a me incomodar. Meu pai mandou eu ir ao barbeiro, certa vez, e disse que pretendia deixar o cabelo crescer mais um pouco. Ele prontamente me bloqueou dizendo que eu não ia deixar o cabelo crescer, não, porque ele não queria vagabundo dentro de casa. O cabelo um pouquinho maior era para vagabundos. As pessoas tradicionais pensavam assim. Mas a revolução cultural já estava abalando os alicerces de muitos comportamentos induzidos pelo militarismo internacional. Citei o caso para para termos uma ideia da repressão que as pessoas sofriam dentro do próprio lar. Por outro lado, a pessoa nunca está formada, ela pode é estar desmotivada para aprender. O pintor Leonardo da Vinci morreu muito idoso e lamentou a proximidade da morte argumentando que estava deixando o mundo logo naquele momento em que estava começando a aprender a pintar. Enfim, hoje sabemos que a pessoa nunca está formada ou acabada. Cada pessoa é um processo em evolução. E a função da educação é estimular comportamentos e pontos de vistas criativos, opostamente aos condicionamentos, para que o novo seja acrescentado no banco de dados da espécie humana, promovendo a evolução. 



Não parece, mas a educação que acrescenta a criatividade e que estimula o interesse pelo que não sabemos ainda, de alguma forma provoca mudanças evolutivas no cérebro. É claro que considerando essas provocações biológicas da criatividade na aprendizagem escolar, dentro do que compreendemos como eternidades do tempo biológico ou evolutivo, parecerão não ter influência nenhuma. No entanto, o esforço cognitivo do educando (e até a pessoa mais idosa do planeta é um educando) com o exercício do ensino criativo imprime essa atividade nas células e essa informação passa por toda a cadeia das partículas da matéria, estimulando o processo biológico da evolução do cérebro. A nossa mente está em profundo contato inconsciente com a mente das células, das moléculas, dos átomos e com a mente de todas as partículas que compõem a matéria. Tudo no universo está em processo educativo, não é só o ser humano. A educação é uma das facetas da evolução das espécies, já que ela visa atingir a melhor adaptação ao meio para sobreviver  mais facilmente e se perpetuar. As partículas da matéria estão em processo educativo também. Além disso, todas as coisas são portadoras de psique, e esta é cósmica. A transmissão da informação só ocorre por processo psíquico. Até um átomo tem uma estrutura psíquica, porque está continuamente recebendo e transmitindo informações. Dessa forma, a educação é um processo psíquico que estimula, no plano geral da aprendizagem, a evolução psicossocial da espécie. O inconsciente biológico evolutivo pode estimular no indivíduo o interesse pela criatividade comportamental e assim provocar mudanças evolutivas na estrutura psicossomática. A vida não tem finalidade pessoal. Somos estimulados para o todo e não somente para nós mesmos. Qualquer tipo de atividade das espécies visa interesses de mudança de comportamento dessa mesma espécie. Por isso cada geração constrói um modelo mais avançado de comportamento. Qualquer indivíduo é mais informação evolutiva da espécie humana do que processo de crescimento de si mesmo. O aborrecimento de Nietzsche é mais um processo de informação biológica sobre a dificuldade de adaptação do que uma questão pessoal de insatisfação. Mas o processo educativo social é muito importante e Lauro de Oliveira Lima foi muito importante para a sociedade carioca no processo de estimular o indivíduo a evoluir a obter informação, combatendo a noção ultrapassada de que o indivíduo que adquiria um emprego e se casava estava formado e, portanto, não deveria se interessar por mais nada porque a vida tinha essa finalidade específica de trabalhar e casar. O pensamento do Professor Lauro imprimiu a convicção de que o ensino escolar não deve parar numa determinada etapa da vida da pessoa. Deve continuar sempre, pois o uso do cérebro com a função especulativa estimula mudanças biológicas no mesmo com a finalidade de aperfeiçoar seu funcionamento no futuro biológico da espécie humana. A noção de vida era muito pessoal, na década de 60, subtraindo qualquer tipo de responsabilidade do indivíduo com a continuidade da educação e com a evolução da espécie. A educação criativa busca melhores resultados evolutivos, a longo prazo. Os homens nascem, contribuem com informações e morrem, mas a humanidade está sempre viva e absorve essas informações para melhorar seu desempenho social e biológico. Enfim, o objetivo da existência a ser atingido não é o indivíduo como pessoa, mas a humanidade. A vida olha a humanidade como uma unidade, um único corpo, e não como milhões de indivíduos, assim como nós olhamos uma parede e vemos ela como uma unidade, mas sabemos que ela é uma multiplicidade de partículas invisíveis que se unem para se tornarem visíveis aos nossos olhos. O olhar da existência vê a humanidade como um único ser em evolução. Por isso dizemos que o homem verdadeiro é a humanidade. O que evolui, na verdade, é a humanidade. A educação, portanto, visa a humanidade, embora as pessoas tirem proveito dela. Do mesmo modo, os arquétipos ancestrais que organizam modelos de sociedade, possuem uma função não especificamente para o indivíduo. O inconsciente coletivo é da humanidade, contém informações de todas as gerações que nos antecederam, ele não é da pessoa e nem visa a pessoa, visa o social, o coletivo, a humanidade. Por isso que a noção de que a pessoa estava formada quando se empregava e se casava, característica da década de 60, estava errada. Continuo vendo o ser humano como uma unidade que capta e transmite informações. Essa seria sua função existencial. O mecanismo funcionaria como um disparo de informação social para o inconsciente coletivo e outro disparo de informação para o inconsciente biológico. Então o inconsciente coletivo seria como a psique coletiva ou social. A mente da humanidade é o inconsciente coletivo e as informações das pessoas são arquivadas e comprimidas em arquétipos que influenciam diretamente no modo de organização social, sempre visando uma melhor adaptação das especie humana ao meio ambiente. Do mesmo modo, o inconsciente biológico extrai as informações de satisfação e insatisfação dos indivíduos com o meio e criam arquivos ou arquétipos biológicos que promovem mudanças de comportamentos (adaptações) que garantem melhores chances de sobrevivência. Funciona da seguinte maneira: as informações de satisfação ou insatisfação são disparadas em cadeia de transmissão para o inconsciente biológico e para o inconsciente coletivo. Essas informações retornam como condicionamento comportamental coletivo através do nosso contato constante com o inconsciente biológico e com o inconsciente coletivo. É um processo automático esse circuito e muito mais rápido do que a velocidade da luz. As informações sensoriais de um indivíduo são transmitidas para o universo inteiro. Entendemos a razão pela qual o Lauro de Oliveira Lima não via a educação como uma causa pessoal, a sua luta não era para si mesmo. Estava encarnada nele a sensação de que a adaptação da humanidade a melhores formas de sobrevivência e convívio social dependia da educação, embora que seu discurso estivesse focado na questão da habilidade inata do indivíduo para aprender e descobrir cada vez mais aquilo que não se inseria dentro do conhecido, conforme também pensava Piaget. Fugir do condicionamento é a regra. Pois o novo tem que ser criado. Fazer diferente é importante. Pensar diferente é importante. Tentar o diferente é fundamental. A mente especulativa está sempre em busca de se conhecer e na ponta desse autoconhecimento estará a humanidade. Ou seja, a verdadeira identidade do homem é a humanidade".

***** Texto retirado do livro LAURO DE OLIVEIRA LIMA , de autoria do escritor Marco Aurellio Dias.

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