Os fillings da psique humana

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raiva
Por Marco Aurélio Dias

     Talvez os nossos comportamentos estejam mais ligados aos condicionamentos ancestrais do que supunha Carl Jung. Não só através dos arquétipos arquivados no inconsciente coletivo, mas também da nossa ligação com as várias fases anteriores da psique humana. A psique tem um arquivo inconsciente constituído de módulos psíquicos que serviram em outras fases da evolução humana e continuam ativos. Através desses módulos psíquicos conservamos comportamentos condicionados que usamos no passado. Por exemplo, a gente observa que, no geral, toda pessoa se acha certa ou tem um sentimento de estar absolutamente certa em suas posições, quando, na verdade, o outro não a enxerga assim e observa todos os seus erros. Nós mesmos as vezes olhamos para trás e percebemos que estávamos errados em vários comportamentos que tivemos no passado, mas, naquela época, tínhamos a certeza de que estávamos certos, e aquela certeza gerou brigas, ódios, violência, separação, covardia, etc. Essa certeza é um sentimento que vem se conservando na psique desde os tempos em que não tínhamos nenhum compromisso com a razão social, época que chamamos de Idade da Pedra. A pressão psíquica da luta selvagem pela sobrevivência do mais forte não deixava espaço para qualquer tipo de autorreflexão. Hoje, em sociedade, a nossa liberdade termina onde começa a liberdade do outro. A sensação de liberdade absoluta que experimentamos no sentimento de estarmos sempre certos está enraizada na fase pré-humana conservada em arquivos psíquicos guardados no inconsciente. Esse condicionamento psíquico impede, quase sempre, que tenhamos uma reflexão ajuizada sobre a possibilidade de estarmos errados em certas atitudes. Vai daí que somos pouco ponderáveis e demasiadamente fechados a reflexões que nos coloquem contra as nossas posições estabelecidas. Por isso somos inflexíveis, muitas vezes. Raramente colocamos em dúvida nossas posições. Um outro sentimento arcaico que nos torna inflexíveis é o medo da competição na luta incessante caracterizada pela sobrevivência do mais forte. Ponderar e ceder sugere fraqueza e a possibilidade de fracassar, o que é imperdoável na natureza. Então não cedemos, competimos. A pressão psicológica do instinto de sobrevivência (onde sabemos que o mais forte tem maiores chances de sobrevivência) gera comportamentos de inflexibilidade. Ser inflexível nos dá a sensação de que somos mais fortes. Esses impulsos psíquicos podem ser observados, monitorados e deixar de gerar comportamentos instintivos. Quase sempre, mesmo quando reconhecemos que estamos errados, mantemos a posição de que estamos certos. Traímos a razão e convivemos com o conflito de esconder a dúvida que ela nos apresentou. Escondemos a razão e defendemos nossos erros com desculpas. O sentimento de sobrevivência do mais forte (aqui falamos de competição) as vezes tem mais influência na psique do que a própria razão. Por isso agimos mais por instinto do que racionalmente. Mas, voltando aos condicionamentos arcaicos da psique, basicamente ao sentimento absoluto de que estamos certos, quando esse filling psíquico é contrariado dispara uma série de outros condicionamentos arcaicos e que também sobrevivem em nossa psique como herança psicológica dos ancestrais, influenciando diretamente no relacionamento humano e quase sempre se opondo aos arquétipos socializantes disparados pelo inconsciente coletivo. Quando contrariados, ficamos com raiva, com ódio, com a expressão de um animal feroz estampada no rosto e realmente agimos como bichos, voltamos aos tempos pré-humanos dos heidelgergensis migrando da África para a Europa. Portanto, todas as experiências psíquicas da espécie humana em todas as suas fases de socialização estão interiorizadas na psique. A nossa herança psíquica não se estabelece apenas nos condicionamentos herdados em sociedade a partir do momento em que nascemos, nem estão implícitos na herança biológica arquivada no DNA da célula, nem se impõe através apenas do inconsciente biológico ou do inconsciente coletivo (social). Existe um inconsciente psíquico da evolução da psique com o qual estabelecemos conexão e herdamos os arquivos raciais. A psique, além de absorver as experiências sensoriais, as experiências de socialização e educação, os impulsos instintivos e a influência do inconsciente coletivo, ela tem uma estrutura pronta com os fillings (recheios) ou arquivos da evolução psíquica da humanidade. A psique, portanto, é mais do que uma estrutura psíquica pessoal, ela estabelece uma ligação com essa psique, que, provavelmente, é independente e separada da nossa estrutura mental. Muitos comportamentos são herdados não por condicionamento cultural (em sociedade), mas através de fillings psíquicos.  

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