Medo do rato roer o cabelo

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rato roer cabelo

A confissão de Valéria Roustin

Por Marco Aurélio Dias

     Valéria Roustin confiava nas minhas observações. Trabalhava como artista plástica. Ouvi-a e aconselhei-a durante anos. Seu problema era um pavor mórbido a ratos. Ficamos tão amigos que ela me apelidou amigavelmente de "meu psiquiatra" e eu a chamava de "minha paciente". Ela também me aconselhava.
     Ouvir o outro é um dos melhores remédios e uma grande demonstração de amizade.
     Valéria Roustin foi criada em um bairro sem saneamento básico. O esgoto das casas corria em valas abertas nas laterais das ruas. Havia muito rato e lixo no local.
     - "Desde muito pequena me ensinaram que não podemos deixar fios de cabelo no chão. Se o rato roer o cabelo da pessoa ela fica doente da cabeça. Acho que queriam dizer esquizofrênico ou débil mental. Se me dissessem que não devemos jogar nossos lixos no chão eu teria tido um bom aprendizado. O fato é que isso me impressionou excessivamente. 
     - "Na esquina da minha rua morava um moço. Por volta dos 18 anos ficou "maluco". Ia para a rua falar alto. Falava de guerra. Repetia o nome de Hitler muitas vezes. Diziam que o rato havia roído o cabelo dele. Também diziam que ele ficou "maluco" de tanto estudar. Acreditava-se que estudar muito deixa "maluco". 
     - "Por isso cresci sempre preocupada com meu cabelo. Mesmo agora que sou adulta, quando vou ao salão pergunto se não tem perigo dos ratos roerem meus cabelos. O chão sempre está cheio de cabelos das clientes. Não consigo olhar os cabelos no chão e não pensar na questão dos ratos e da loucura. Já sei que não existe nenhuma razão para esse medo. Acredito que rato não rói cabelo. Mesmo se roer, a pessoa dona do cabelo roído não ficará maluca por causa disso. Assim como estudar não deixa "maluco". Mas tenho medo dos ratos subirem na minha cama para roer meus cabelos".
     "Minha paciente" tinha pesadelos com ratos roendo seus cabelos enquanto dormia.  
     - "Durante a infância eu devia acreditar. Não gostava de ver meu cabelo no chão. Algumas vezes minha mãe cortava meu cabelo em casa e tinha a preocupação de embrulhá-lo em jornal para só depois colocá-lo no lixo. O rato podia roer o meu cabelo e eu ficar "maluca". 
     - "Bom! Acho que os ratos roeram o meus cabelos... Eu estou aqui me sentindo uma doida! Mas quero ficar curada desse medo!"
     Criamos apreensões que não se justificam. A educação ainda é cheia de invenções culturais que procuram sugestionar psicologicamente. O povo é hábil em criar e transmitir medos. É possível que se acredite pouco no efeito pedagógico da realidade. Enquanto isso o efeito coercivo das invenções criam desastres psíquicos. Na educação, inventamos o medo para submeter alguém a algo. Raciocinamos com argumentos folclóricos. Mas não deveríamos associar costumes a lendas. Educar através de lendas, medos e castigo pode gerar prejuízo psicológico, criar bloqueios, inibições e surtos psicóticos.

*** Leia o livro A FILA ANDA?, de Marco Aurélio Dias

     

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